Sempre
que acontece um comprometimento neurológico a família fica atrás do neuro querendo
saber a extensão das sequelas irreversíveis e tudo mais. Os doutores já tem seu
discurso ensaiado, aliás o que é a pura verdade.
-"Não podemos responder nada por
enquanto. Esperamos no mínimo 48h, o edema diminuir, e aí vamos pensar nisso. Agora
ainda teve a agressão da cirurgia e não
se pode afirmar nada com certeza".
Alguns dias depois do derrame, no
quarto do hospital Santa Rita, olhei pra algum lugar que me lembrou a casa da
minha sogra, então falei pra Stella:
-"Porque
me trouxeram pra casa de sua mãe?"
Stella
me olhou assustada e deve ter pensado: 'pirou' e me disse sem paciência:
-"Você está no Santa Rita, não reconhece a televisão, a geladeira e o sofá?"
E eu me divertindo por dentro..., outra vez já em casa, após um período de seca
a grama do quintal estava bem queimada e ainda temos uma palmeira no centro,
aquilo me fez lembrar a paisagem árida do nordeste então falei:
-"O gado está morrendo no nosso sítio da Paraíba."
Tinha um folha da palmeira caída lá no meio
do quintal que me lembrou uma queixada de animal, eu estava bem consciente que
não tenho nem tive sítio na Paraíba, mas me divertia por dentro vendo a apreensão
da família com minha saúde mental.
Outro episódio, esse verdadeiro, foi o do
condomínio do irmão do Robson em Salvador, Bahia. Ainda no hospital achava que
estava lá e queria saber como fui parar lá: tinha campo de futebol, piscina,
praia, tudo e eu circulando por lá queria que ligassem para o Robson para ele ir também, mas ninguém me
ouvia...
Essa confusão é perfeitamente normal pela quantidade e potencia dos remédios que nos ministram, mas para a família cada viajada é um sofrimento. Com o tempo as ideias voltam aos seus lugares. Enfim não tive nenhuma nada além da sequela motora, toda parte cognitiva está absolutamente normal.