quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Viajadas do AVC



       Sempre que acontece um comprometimento neurológico a família fica atrás do neuro querendo saber a extensão das sequelas irreversíveis e tudo mais. Os doutores já tem seu discurso ensaiado, aliás o que é a pura verdade.

       -"Não podemos responder nada por enquanto. Esperamos no mínimo 48h, o edema diminuir, e aí vamos pensar nisso. Agora ainda teve  a agressão da cirurgia e não se pode afirmar nada com certeza".


       Alguns dias depois do derrame, no quarto do hospital Santa Rita, olhei pra algum lugar que me lembrou a casa da minha sogra, então falei pra Stella:

       -"Porque me trouxeram pra casa de sua mãe?"

Stella me olhou assustada e deve ter pensado: 'pirou' e me disse sem paciência:

       -"Você está no Santa Rita, não reconhece a televisão, a geladeira e o sofá?"

       E eu me divertindo por dentro..., outra vez já em casa, após um período de seca a grama do quintal estava bem queimada e ainda temos uma palmeira no centro, aquilo me fez lembrar a paisagem árida do nordeste então falei:

       -"O gado está morrendo no nosso sítio da Paraíba."

       Tinha um folha da palmeira caída lá no meio do quintal que me lembrou uma queixada de animal, eu estava bem consciente que não tenho nem tive sítio na Paraíba, mas me divertia por dentro vendo a apreensão da família com minha saúde mental. 

       Outro episódio, esse verdadeiro, foi o do condomínio do irmão do Robson em Salvador, Bahia. Ainda no hospital achava que estava lá e queria saber como fui parar lá: tinha campo de futebol, piscina, praia, tudo e eu circulando por lá queria que ligassem para o Robson para ele ir também, mas ninguém me ouvia...
       
       Essa confusão é perfeitamente normal pela quantidade e potencia dos remédios que nos ministram, mas para a família cada viajada é um sofrimento. Com o tempo as ideias voltam aos seus lugares. Enfim não tive nenhuma nada além da sequela motora, toda parte cognitiva está absolutamente normal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Acordando na uti



       Não quero nem vou fazer deste espaço um chororô, tive muita sorte que meu AVC, apesar da localização temporo/parietal direita, ou seja, área que comanda fala, deglutição, visão e cognição fui abençoado e todas essa funções estão preservadas. Por isso agradeço todos os dias meus anjos e espíritos protetores. O acidente foi caprichoso em poupar estas funções, imagine tudo isto ainda sem enxergar ou sem paladar ou falar.


       Fiquei sabendo pela família que quando subi para craniotomia descompressiva havia um real risco de 70% de morte pelo edema cerebral que já era intenso, imagine vc abrir uma gaveta cheia de tranqueira e querer mexer nela e depois recolocar tudo dentro e fechar gaveta de novo. Teria sido assim. Teve até um climazinho pra me esperar acordar o que ocorreu 5 dias depois.


       O Dr. Jair, meu médico ia lá:

       “-Celsão, abre o olho.” E eu ia fazendo o que dava;

 Até um dia ele disse:

       “-Você está me ouvindo? Levanta o dedo”, e eu mostrei-lhe o terceiro em riste, o alívio e a risada foi geral e o comentário... “Está bom, vai acordar.”


       Minha fisio, a Helen Deutchland, nem nessa hora me deu refresco e alguns dias depois de acordar, mesmo ignorando meus protestos, me pôs em pé.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O AVC


       Era uma sexta feira igual a todas as outras, acordei as 7 horas com sono, vontade de dormir mais e fui para o meu plantão no PA da Unimed, que ia até as 13 horas. sem nada sentir de diferente fui para a Secretaria de Saúde a uma da tarde. Nenhum sintoma me chamou atenção, nenhum adormecimento ou aviso como costumam sentir os pacientes que sofrem AVC. Trabalhando senti uma tontura forte que me desequilibrou e caí no chão com a cadeira , batendo a cabeça sem gravidade, em seguida tive uma profusa sudorese. Meus colegas de trabalho chamaram o SAMU. Fui encaminhado ao UPA municipal, diagnosticado AVC e reencaminhado a UTI do Hospital Santa Rita, onde trabalhei por 32 anos.

       O amigo e chefe da UTI, Dr. Jair Biato foi pessoalmente me buscar na UPA, fiz os primeiros exames, e ele já avisou ao neurocirurgião que ele teria uma cabeça pra abrir em seguida. 


       Esse tipo de patologia produz muito edema dentro do crânio, causado pelo inchaço e o cérebro não tem pra onde crescer e pode se auto comprimir afetando áreas nobres e piorando ainda mais o estrago já causado. Assim de noite já estava com o crânio aberto e um belo pedaço de osso retirado para dar espaço ao inchaço inevitável.


       Esse pedaço foi guardado na minha barriga. Ali ficou por 3 meses. Sempre brincava que estava como carro velho: sem calota e com rádio mono, apenas um canal, pois o esquerdo estava pifado.


       Meu AVC tomou 35% do meu hemisfério cerebral direito. Fiquei 5 dias em coma e outros 10 na UTI, e em 27 dias sai do hospital.


       Mas o choque, a conscientização, as peripécias, dificuldades  desses 27 dias vou contar aos poucos. 


       Vou relatar também, minhas angustias, medos, dúvidas e conquistas. E outras historias. Quem era e quem sou.


       Espero que vocês gostem, participem com suas experiências para juntos podermos superar, aprender e ensinar sobre esses momentos difíceis que estamos passando.