A música sempre foi
minha válvula de escape que junto com o esporte, sempre me acompanhou por toda
vida. Como já disse anteriormente estas características, mais o fato de não
fumar nem beber e não comer gorduras não me deixam compreender este meu AVC. É
certo que meu avô paterno, o seu Juca, músico como eu, flautista, também teve
um derrame evidenciando um traço genético fraco pois sou seu neto e não filho, o
que mostraria a genética mais forte.
Vou lhes contar da
Carniça, meu primeiro grupo de choro que iniciou suas atividades em 1971/1972
Estudava no primeiro ou segundo ano da
faculdade de medicina quando ganhei no natal o bandolim da Stella, que soube
explorar muito bem o presente. Por carta e por telefone foi dando dicas do que
era e eu tinha que adivinhar. Disse que era verde, tinha cabo e estava guardado
embrulhado num lençol no armário. Impossível acertar, não? e assim brincamos
várias semanas, ela estava em Maringá com os pais e eu viria no natal depois de
encerradas as aulas da faculdade.
Uma tarde depois de voltar a São Paulo lá fui eu na casa do Xico Leão meu colega
de colegial, com quem estudei para o vestibular que caíra de cama com uma
hepatite brava, levei meu bandolim pois o Xico era um bom violonista e gostava muito de música. Já tínhamos tocamos juntos antes numa banda de rock do colégio São
Luis, mas esta será uma outra história, aguardem! Naquela tarde tocamos alguns sambas com ênfase para o Chega de Saudade no arranjo do Jacob e do
Zimbo Trio: estava dado o pontapé inicial do conjunto regional A Carniça!
Precisávamos de um violonista de 6 cordas
e um de 7, não conhecíamos nenhum da Santa Casa, pois era prioridade um
conjunto só de estudantes de medicina. Acabamos, por necessidade, incorporando
estranhos à escola, o meu amigão Mingo Mero recomendou seu primo Cesar Brunetti
que era professor de violão e iria gostar do projeto, foi muito bem aceito e um
verdadeiro ganho para o grupo pois ele é ótimo compositor além de violonista.
Logo descobrimos o Alex Nicastro, residente da cirurgia vascular e roqueiro de
origem, que se juntou a nós com o 7 cordas e estava montado o regional, o chamamos Carniça, pois sempre que
íamos tocar em algum lugar aquele grupo de urubus (nossos amigos) ia atrás.
Tocávamos muito no centro acadêmico e em
outras festas de amigos da faculdade, ensaiávamos e tirávamos choros às sextas feiras
no sítio do Brunetti, na granja Viana, perto de SP. Acabamos incorporando um
pandeirista, o José Nicolau e meus irmãos Fabio e Byron na percussão, com o
Xico no cavaco e eu no bandolim. Daí pra frente, foi só estudar os choros e
ensaiar. Fomos melhorando sendo convidados para tocar aqui e ali, aumentando o
repertório.
Stella me deu o bandolim sem preocupação
de sonoridade e marca, claro, simplesmente acendeu minha atenção para novas
possibilidades musicais e para o choro, que eu agradeço sempre, mas não era instrumento de luthier nem poderia ter
sido pois nem eu sabia que tocaria bandolim um dia.
No meu aniversário de 1976 estranhei minha mãe
ter comprado docinhos e salgadinhos além de um bolo, coisa incomum nos meus aniversários
e toda Carniça estava presente junto com meus irmãos. Pensei: aí tem coisa! Mancomunados
com meus pais prepararam uma bela surpresa em casa e claro: vamos tocar. Fui
pegar meu bandolim mas no lugar do antigo estava um outro novo da luthieria
Soros, como dos grandes bandolinistas da cidade. Uma beleza de instrumento, com
escala de ébano e madre pérola ao redor do ouvido. Presente da carniça! era coisa
de profissional, eu o tenho até hoje. O som continua lindo e macio de tocar,
deu umas entortadas na caixa de ressonância pela variação do clima, mas foi todo
restaurado aqui em Mgá e está como novo. Fiquei nas nuvens com a surpresa era leve
e muito sonoro.
O grupo era a vedete das festas do centro acadêmico
da Santa Casa, éramos frequentes lá, além de festas em casas de amigos. Com o
tempo o Cesar Brunetti foi se revelando como compositor e se afastando da Carniça,
uma pena para nós mas ótimo para ele que faz da composição de música para
comerciais o seu trabalho. Você lembra do pipoca com guaraná...? e brasileiro
adora feijoada?...é da sua lavra o seu trabalho.
Assim foi minha iniciação no choro que só voltei
depois de 25 anos sem tocar esse instrumento, com o convite dos amigos do Enxó de Bainha aqui em Maringá. (faz parte da
tradição meus conjuntos terem nomes estranhos, mas isso também é outra história....)
Posto uma foto histórica da Carniça no
festival de talentos do Clube Harmonia de Tennis em 1976. Da esquerda para
direita Cesar Brunetti, Alex Nicastro ainda com cabelo no 7 cordas, Celso no
bandolim, Xico Leão no cavaco, Fabio, meu irmão mais novo no tamborim, José Nicolau
no pandeiro e meu irmão mais velho Byron na timba.
