Vou falar outra vez deste tema que é
recorrente nas minhas conversas. Ainda outro dia uma paciente me falou: - Me
fale do túnel. - Túnel que túnel? - Aquele que a gente entra quando corre
risco de vida.
Corri risco de vida mas estava atendido por boa
equipe, longe de morrer mesmo se o derrame tivesse progredido o que ocorre
frequentemente, aí complicava muito, mas ficou naquilo estável. Medicado, acompanhado,
não vi túnel nenhum, nem nada, não lembro de nada, reafirmo o coma é uma
situação de doença ou trauma onde o cérebro diminui seu trabalho ao mínimo para
se poupar, não registra nem analisa nada, está com sua energia bem baixa, quase
desligado, só se ocupando de funções vitais: como controle da pressão, função
renal, arterial, da frequência cardíaca e outras por assim dizer, imprescindíveis
à vida, o resto é deixado de lado: consciência, memória, fala, visão e audição...
Muitas
pessoas depois que saem do coma trazem seus conteúdos : - Vi minha mãe, minha avó. - Falei com
Deus. Alguns fazem livros e vão no Jô dar entrevistas, mas isso já é uma semi
consciência, muito bem vinda, mas o conteúdo nem sempre é verdadeiro, ao pé da letra,
e muitas pessoas gostam de glamourizar até nesta hora, como outras não querem
perder nem na doença. Com certeza vc já ouviu conversa semelhante por aí: - Apendicite?!
foi a minha, quando abriram já tinha “estuporado”, foram 15 dias de hospital e depois da alta,
voltei e fiquei mais 20 pois estava com pus de novo lá dentro aí foi esse outro
cortão aqui, sofri muito. - E eu então ! Fiquei 28 dias no hospital, 15 só na
UTI.... 3 drenos na barriga minando pus!
Enfim o
cérebro está acordando trazendo seu conteúdo, cada um transforma seu
sofrimento, ansiedade ou angustia em referencias reconfortantes, nem sempre
reais. Se é uma pessoa muito religiosa seu retorno será diferente de um ateu, se
era apegado a alguém que já se foi o revê em suas fantasias, bem semelhante
àquelas grávidas que dizem que o nenê , ainda na barriga, reage e
“conversa” com ela. Primeiro: deve chegar pouquíssimo som lá dentro, tem todo o
revestimento do abdome, o panículo adiposo que as vezes é bem espesso e
isolante, a musculatura, a parede do útero e o líquido, e a criança não tem um
encéfalo desenvolvido para identificar e entender o som. Lembramos que a criança
começa a falar por volta dos 12 meses, já andando, com o cérebro bem mais
amadurecido e capaz, mas as mães acreditam piamente que o feto reage às suas
conversas, tudo bem quer acreditar, acredita, mas como expus, acho fisicamente
e fisiológicamente difícil chegar algum som lá dentro, ser entendido e ainda determinar
resposta motora da criança ainda tão imatura do ponto de vista neurológico. Mas
tenho que aceitar e incentivar pois é uma maneira concreta de se relacionar com
seu filho ainda por nascer. É uma
vontade correta e salutar muito grande das mães. 9 meses lá dentro e nem um
oizinho ? - Oi meu filhinho lindo, mamãe
já te ama muito! Mesmo que não ache possível devo incentivar e achar lindo! Mas ...não
contem pras grávidas certo?
Da mesma
forma, é o cérebro que adormecido, pouco absorve do mundo exterior ou tem
capacidade de “viajar” através de túneis ou galáxias...
Será que o tal
túnel é uma metáfora de entrar pelo cano? Só se for isso, maneira amena de se
entender que entrou pelo cano, ali na UTI em coma??
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