quinta-feira, 7 de maio de 2015

Túnel?



             


              Vou falar outra vez deste tema que é recorrente nas minhas conversas. Ainda outro dia uma paciente me falou: - Me fale do túnel.  - Túnel que túnel? - Aquele que a gente entra quando corre risco de vida.
                 Corri risco de vida mas estava atendido por boa equipe, longe de morrer mesmo se o derrame tivesse progredido o que ocorre frequentemente, aí complicava muito, mas ficou naquilo estável. Medicado, acompanhado, não vi túnel nenhum, nem nada, não lembro de nada, reafirmo o coma é uma situação de doença ou trauma onde o cérebro diminui seu trabalho ao mínimo para se poupar, não registra nem analisa nada, está com sua energia bem baixa, quase desligado, só se ocupando de funções vitais: como controle da pressão, função renal, arterial, da frequência cardíaca e outras por assim dizer, imprescindíveis à vida, o resto é deixado de lado: consciência, memória, fala, visão e audição... 
          Muitas pessoas depois que saem do coma trazem seus conteúdos : - Vi minha mãe, minha avó. - Falei com Deus. Alguns fazem livros e vão no Jô dar entrevistas, mas isso já é uma semi consciência, muito bem vinda, mas o conteúdo nem sempre é verdadeiro, ao pé da letra, e muitas pessoas gostam de glamourizar até nesta hora, como outras não querem perder nem na doença. Com certeza vc já ouviu conversa semelhante por aí: - Apendicite?! foi a minha, quando abriram já tinha “estuporado”,  foram 15 dias de hospital e depois da alta, voltei e fiquei mais 20 pois estava com pus de novo lá dentro aí foi esse outro cortão aqui, sofri muito. - E eu então ! Fiquei 28 dias no hospital, 15 só na UTI.... 3 drenos na barriga minando pus!
         Enfim o cérebro está acordando trazendo seu conteúdo, cada um transforma seu sofrimento, ansiedade ou angustia em referencias reconfortantes, nem sempre reais. Se é uma pessoa muito religiosa seu retorno será diferente de um ateu, se era apegado a alguém que já se foi o revê em suas fantasias, bem semelhante àquelas grávidas que dizem que o nenê , ainda na barriga, reage e “conversa” com ela. Primeiro: deve chegar pouquíssimo som lá dentro, tem todo o revestimento do abdome, o panículo adiposo que as vezes é bem espesso e isolante, a musculatura, a parede do útero e o líquido, e a criança não tem um encéfalo desenvolvido para identificar e entender o som. Lembramos que a criança começa a falar por volta dos 12 meses, já andando, com o cérebro bem mais amadurecido e capaz, mas as mães acreditam piamente que o feto reage às suas conversas, tudo bem quer acreditar, acredita, mas como expus, acho fisicamente e fisiológicamente difícil chegar algum som lá dentro, ser entendido e ainda determinar resposta motora da criança ainda tão imatura do ponto de vista neurológico. Mas tenho que aceitar e incentivar pois é uma maneira concreta de se relacionar com seu filho ainda por nascer.  É uma vontade correta e salutar muito grande das mães. 9 meses lá dentro e nem um oizinho ?  - Oi meu filhinho lindo, mamãe já te ama muito! Mesmo que não ache possível devo incentivar e achar lindo! Mas ...não contem pras grávidas certo?
            Da mesma forma, é o cérebro que adormecido, pouco absorve do mundo exterior ou tem capacidade de “viajar” através de túneis ou galáxias...
             Será que o tal túnel é uma metáfora de entrar pelo cano? Só se for isso, maneira amena de se entender que entrou pelo cano, ali na UTI em coma??

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