quinta-feira, 23 de abril de 2015

Historias Musicais Paulistanas II



            Minha nova posição de espectador me faz mais observador e minha memória as vezes me leva a lugares quase perdidos.
           Ontem mesmo me lembrava dos velhos tempos. Em 1971 no Natal, ganhei de presente um bandolim da Stella. Nunca tinha tocado um e fiquei fascinado. Por muito tempo só ouvi e toquei chorinho. Acabei por me juntar a um grupo com Osvaldo Colagrande no 7 cordas, Xixa no cavaco e Joãozinho no pandeiro, ensaiávamos músicas inéditas do Esmeraldino Sales, cavaquinista e grande compositor de choro que acabou por inscrever  uma musica chamada Arabiando no festival de choro da TV Bandeirantes. Fomos pra final, eu solista do grupo! Na tarde da apresentação participei do handbol da Santa Casa, e numa entrada mais dura quebrei o segundo metacarpo da mão esquerda. Atendido no PS logo ganhei um gesso até o cotovelo. Correndo fui ligar para o grupo e dar a boa notícia! foi tenso e chato. Mas arranjaram um substituto, ficamos em terceiro lugar, e a gravação para o disco, já havia sido feita com o meu solo. O cachê de 300,00 pago pelo terceiro lugar tinha destino certo: pizza, cerveja e as histórias impagáveis do Esmeraldino, nosso mentor . Esse encontro nunca ocorreu, Esmeraldino faleceu dias depois  em decorrência de complicações do diabetes e da pressão alta.
       Nessa mesma época, as sextas de noite ia ver o Conjunto Atlantico do Isaías tocar, lá na Av. Rudge no centro de SP. O Sr. Ernani d’Áurea, o 7 cordas e dono da casa não admitia bebida alcoólica, então aqueles que gostavam iam até o bar da esquina, que já sabia disso e deixava a porta  do lado  aberta, tomavam seu aperitivo e voltavam. Muitas vezes quando Isaias ia molhar a palavra, me chamava para a roda , deixava seu bandolim comigo e ia tomar sua pinguinha na esquina, aí eu escolhia a música que estava mais afiado naquela semana, dizia o nome e iniciava. Eu no lugar do Isaías! e ainda, tocando no seu bandolim! Puro prazer! Valia a pena esperar uma semana para outra oportnidade! Isso acontecia na alta madrugada e no dia seguinte passava visita às sete  da manhã na Santa Casa, era residente da ginecologia e tinha obrigações, chefes e cobranças, mas cumpria minhas tarefas muito bem nos 3 anos de residência.     
         No sábado antes do almoço havia uma roda de choro informal na fabrica de instrumentos Soros no bairro da Casa Verde, nestas ocasiões alguém levava uma garrafa, para o aperitivo. O 7 cordas costumava ser o Israel, irmão do Isaías ou o Carioquinha, aí era mais solto e o Isaías  improvisava muito, que  era lindo de se ouvir. Participar daquele happening musical paulistano, um dos melhores que já ouvi foi um privilégio, chegava em casa sempre  atrasado para o almoço mas alimentado  de música, quase não precisava comer...
       O tempo passa, a vida muda. São lembranças ricas e saborosas que me ajudam a encarar os desafios de agora. Vitorias são vitórias, nessa semana dobrei voluntariamente meu cotovelo! Ótimo. Preciso de muita concentração para fazê-lo pois não sinto o braço e nem sempre acerto o grupo muscular a usar, a fisio Helen,incansável, fica ali orientando, e chega a doer a cabeça de tanto concentrar, também dei uma volta no quarteirão, só com uma descansadinha de 2 minutos. Hoje dei mais meia volta e amanhã devo dar mais meia e assim vou indo não é “quero coçar a orelha e o braço vai lá”, ninguém pensa em elevar o bíceps, dobrar o cotovelo e mexer os dedos para coçar a orelha simplesmente coça e acabou. Eu não sinto o braço mas tenho que reaprender os movimentos,  nem sempre, acerto o que quero fazer as vezes recebo ordens para dobrar o cotovelo e contraio o braço todo, não sai nada.
Entre exercícios e recordações vou devagarinho me reabilitando e contando historias do passado e do presente.
Este é o Celsão de hoje.



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Historias Musicais Paulistanas

        

      Este é um blog da minha vida pós AVC e eu cismo de colocar histórias de antes do AVC ou que nada tem a ver com o derrame. Fico muito tempo ocioso em casa matutando aquilo que vivi nestes 60 anos e algumas histórias são interessantes o suficiente para serem divididas com vocês.
Esta aconteceu no inicio dos anos 80.

       Ganhei meu primeiro bandolim da Stella em 1972 e me apaixonei perdidamente pelo choro, daí em diante não tinha ouvidos para outro tipo de música, era só choro que eu tocava o tempo todo, a ponto de fazer minha família enjoar do estilo. Tenho até hoje um disco que ouvi tantas vezes para tirar Assanhado do Jacob, que o disco gastou aquela faixa!, a família tinha que enjoar não é? era o dia inteiro com o bandolim na mão plim, plim, plimplim...

       Comecei tocar solo num regional e muito raramente ensaiávamos. Marcar em casa era bom pra mim, mas se o Guga estivesse dormindo ele acordava e lá se ia a noite embora, a dele e a nossa! Marcamos um ensaio para a casa do Otavio nosso cavaquinista, que morava na Vila Nova Cachoeirinha e lá fui eu com meu super fusca beje com o mapa bem anotado e decorado. Fui chegando na primeira marcação que era a pracinha do ponto final do ônibus, ainda meio longe, via com dificuldade algumas coisas, ao chegar mais perto, confirmei estava lá um corpo estendido no chão , coberto de jornal e ladeado por 4 velas com duas mulheres chorando muito. Havia uma viatura da polícia militar ali parada, eu deveria subir uma escada de alvenaria que saia da praça e foi o que fiz ao chegar num patamar cruzado por duas vielas, pegaria a da direita e iria até o fim dela, aí subiria  até o fim da rua, virava a esquerda e era a segunda casa: uma tapera de tábuas e teto de zinco. Rezei, chamei pelo Otavinho e ele apareceu lampeiro pulando num pé só. Me chamou para entrar e ao o me aproximar da porta estranhei mais ainda ao ver seu pé num canto da sala. Ele disse você não sabe... mas sou amputado há 9 anos, era jornaleiro e um ônibus entrou na minha banca, neste acidente tive o pé amputado. Mas vc nem manca, eu disse. Muito pouco, esta prótese é muito leve e está bem adaptada, já são 9 anos treinando. Passei os olhos pela sala que era rigorosamente limpa e arrumada, chão de terra batida, impecável, cantoneiras com vasinhos de flores e toalhinhas brancas enfeitavam os cantos, um esmero. Acho que por curiosidade acabei indo ao banheiro que seguia o mesmo rigor de limpeza e organização do resto da casa. A mulher de Otávio trabalhou como nossa diarista mas era tão rigorosa com arrumação e bagunça que acabou descombinando do nosso estilo jovem, com filho pequeno.

Músico da noite em São Paulo eu tocava todas as sextas feiras na boite do IAB, instituto dos arquitetos do brasil, bem na boca do luxo de SP. Uma vez fui pegar o cachê com o gerente da casa e fiz a divisão: 5 músicos, então dividi o total por 5 e resolvido. Ao distribuir o dinheiro, Otavinho que era nosso cavaquinista disse agressivamente : -eu nunca ganhei igual ritimista! João , nosso pandeirista apertou seu pandeiro contra o peito e não fez um ruído sequer.É que havia uma hierarquia desconhecida por mim, solista e cantor ganhavam mais depois os harmonia: violão, cavaco e piano se houvesse. O pessoal do ritmo era  o que ganhava menos. Todo este cache era integralmente consumido na feira da Pedroso de Moraes que a Stella e eu frequentavamos no sábado de manhã. 

Na Santa Casa se  dizia que residente  não podia trabalhar com medicina, ninguém dizia nada em relação à música, então eu tocava, aliás, ganhava mais tocando até 3h da madrugada do que num hospital até as 7h, no maior corre, corre.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Meus planos

    Recebi umas perguntas no meu e mail do meu afilhado Rafael Donadio e uma delas era quais meus planos pro futuro, coincidentemente a mesma pergunta que tem me feito dona Stella pro meu futuro imediato e longínquo.
    Isso me faz pensar. Voltar a trabalhar e tocar, claro. Ter uma vida muito próxima da que eu tinha. Eu sei, isso é perfeito e simplista.
    É preciso muito mais que isso. Ser um recuperando aplicado e fazer bem feitas todas as tarefas exigidas pelos meus terapeutas é o grande desafio imediato,  assim encurto o tempo para a recuperação total que conseguirei e atingirei.
     Mais preparado para me movimentar, mais ágil, músculos, nervos e cérebro aptos, vou viajar. Entre um trabalho e outro meu plano sempre foi viajar muito e pretendo fazer isso dentro das condições do dólar e do meu corpo. Talvez morar uns meses pelo mundo, Portugal: o querido casal  que nos acompanhará nesta empreitada portuguesa me cobrou de novo: - quando vamos ???, Inglaterra, praia, campo, e claro com meu filho Fernando, em LA.
      E quando estiver aqui, amigos, música, família, trabalho (tenho novos planos, secretos por enquanto). Mas estão sendo estruturados.
        Ainda é cedo para saber até aonde posso reabilitar. Falar, comer, andar, pensar, ter memória são ganhos incomensuráveis. A cada dia tenho novos ganhos, novas conquistas. Um passo mais firme, uma resistencia maior, um cansaço menor e outras tantas vitórias!
      Por não saber até onde posso chegar penso sempre que vou ultrapassar todos os limites e possibilidades. Planos e sonhos estão sempre em “chegar lá, e ir mais além”.
     Eu consigo o dobro, né Riane?