quinta-feira, 16 de abril de 2015

Historias Musicais Paulistanas

        

      Este é um blog da minha vida pós AVC e eu cismo de colocar histórias de antes do AVC ou que nada tem a ver com o derrame. Fico muito tempo ocioso em casa matutando aquilo que vivi nestes 60 anos e algumas histórias são interessantes o suficiente para serem divididas com vocês.
Esta aconteceu no inicio dos anos 80.

       Ganhei meu primeiro bandolim da Stella em 1972 e me apaixonei perdidamente pelo choro, daí em diante não tinha ouvidos para outro tipo de música, era só choro que eu tocava o tempo todo, a ponto de fazer minha família enjoar do estilo. Tenho até hoje um disco que ouvi tantas vezes para tirar Assanhado do Jacob, que o disco gastou aquela faixa!, a família tinha que enjoar não é? era o dia inteiro com o bandolim na mão plim, plim, plimplim...

       Comecei tocar solo num regional e muito raramente ensaiávamos. Marcar em casa era bom pra mim, mas se o Guga estivesse dormindo ele acordava e lá se ia a noite embora, a dele e a nossa! Marcamos um ensaio para a casa do Otavio nosso cavaquinista, que morava na Vila Nova Cachoeirinha e lá fui eu com meu super fusca beje com o mapa bem anotado e decorado. Fui chegando na primeira marcação que era a pracinha do ponto final do ônibus, ainda meio longe, via com dificuldade algumas coisas, ao chegar mais perto, confirmei estava lá um corpo estendido no chão , coberto de jornal e ladeado por 4 velas com duas mulheres chorando muito. Havia uma viatura da polícia militar ali parada, eu deveria subir uma escada de alvenaria que saia da praça e foi o que fiz ao chegar num patamar cruzado por duas vielas, pegaria a da direita e iria até o fim dela, aí subiria  até o fim da rua, virava a esquerda e era a segunda casa: uma tapera de tábuas e teto de zinco. Rezei, chamei pelo Otavinho e ele apareceu lampeiro pulando num pé só. Me chamou para entrar e ao o me aproximar da porta estranhei mais ainda ao ver seu pé num canto da sala. Ele disse você não sabe... mas sou amputado há 9 anos, era jornaleiro e um ônibus entrou na minha banca, neste acidente tive o pé amputado. Mas vc nem manca, eu disse. Muito pouco, esta prótese é muito leve e está bem adaptada, já são 9 anos treinando. Passei os olhos pela sala que era rigorosamente limpa e arrumada, chão de terra batida, impecável, cantoneiras com vasinhos de flores e toalhinhas brancas enfeitavam os cantos, um esmero. Acho que por curiosidade acabei indo ao banheiro que seguia o mesmo rigor de limpeza e organização do resto da casa. A mulher de Otávio trabalhou como nossa diarista mas era tão rigorosa com arrumação e bagunça que acabou descombinando do nosso estilo jovem, com filho pequeno.

Músico da noite em São Paulo eu tocava todas as sextas feiras na boite do IAB, instituto dos arquitetos do brasil, bem na boca do luxo de SP. Uma vez fui pegar o cachê com o gerente da casa e fiz a divisão: 5 músicos, então dividi o total por 5 e resolvido. Ao distribuir o dinheiro, Otavinho que era nosso cavaquinista disse agressivamente : -eu nunca ganhei igual ritimista! João , nosso pandeirista apertou seu pandeiro contra o peito e não fez um ruído sequer.É que havia uma hierarquia desconhecida por mim, solista e cantor ganhavam mais depois os harmonia: violão, cavaco e piano se houvesse. O pessoal do ritmo era  o que ganhava menos. Todo este cache era integralmente consumido na feira da Pedroso de Moraes que a Stella e eu frequentavamos no sábado de manhã. 

Na Santa Casa se  dizia que residente  não podia trabalhar com medicina, ninguém dizia nada em relação à música, então eu tocava, aliás, ganhava mais tocando até 3h da madrugada do que num hospital até as 7h, no maior corre, corre.

Um comentário:

  1. Bela história meu compadre.

    Mês passado te falei de uma matéria sobre o choro. Aí vai:

    http://www.cartacapital.com.br/revista/840/meu-coracao-bate-feliz-4534.html

    Forte abraço e grande beijo pra toda a família.

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