quinta-feira, 22 de setembro de 2016

como nossos pais


          
           Fernando me disse que no próximo fim de semana vai a um festival de musica próximo de LA que tem como atrações: Bob Dylan, Rolling Stones, Paul McCartney, e outros. Na hora me veio a música "Como nossos pais" do Belchior imortalizada na interpretação de Elis Regina: -"nossos ídolos ainda são os mesmos", neste caso são mesmo! lembrei algumas coisas de Bob Dylan e resolvi escrever sobre ele pra variar um pouco.
            Primeiro grande poeta do rock e um dos meus ídolos no rock, apesar de não ser um grande instrumentista, normalmente prefiro estes pois não costumo me ligar em letras. Nas minhas noitadas já aconteceu de cantar uma música muitas e muitas vezes sempre com a letra na minha pasta e não saber do que ela tratava, pois o que me chama a atenção na música normalmente é a melodia, o swing, a levada, a harmonia. Antes do BDylan as letras eram inconseqüentes e superficiais como ele mesmo disse: sem peso! Ele compunha falando das angústias da sua geração. Aprendeu sozinho tocar piano, violão, gaita.
             Seu nome Robert Zimmerman descendente de judeus russos. Procurava um nome artístico e não conseguia algum que lhe satisfizesse. Numa entrevista quando perguntado por seu nome ele disparou Bob Dylan! provavelmente inspirado em Dylan Thomas, poeta inglês muito conhecido entre os jovens da época e que Bob admirava muito, o normal seria Bobby que outros artistas já haviam adotado e que o fez então usar o Bob.
             Suas interpretações e seu estilo o levaram para a música folk, suas letras falavam da solidão, dúvidas vocacionais e outras angústias da sua geração até então assuntos incomuns no rock antes de sua chegada. Era bastante  admirado pelos Beatles, principalmente J. Lennon que se encantava com  os assuntos que Dylan abordava em suas músicas. Numa das idas dos Beatles aos USA acabaram se encontrando, ocasião em que BDylan apresentou a maconha aos Beatles, ele e a banda e passaram toda a noite fumando e tocando, aprofundando seus laços de amizade, trocando idéias de musicas e de letras. Lennon o mais interessado na nova amizade mostrando suas músicas e principalmente suas letras. O dia raiou com eles conversando  animadamente.  
             Like a rolling stone, uma das músicas interpretadas pelos Rolling Stones tem essa imagem de pedras rolantes são muito frequente na música, sugerindo independencia surgiram talvez ainda no blues  de Muddy Waters querendo falar que pedras rolantes não criam limo e são o exemplo de liberdade e ausência de raízes e ligações e posses.  Até Lupicínio Rodrigues usou essa mesma imagem em sua música Vingança quando diz - "você há de ser como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar" , like a rolling stone, na música brasileira.
          Afinal se não me ligo a letras, se Dylan não é grande instrumentista porque ele me chamou atenção? Pela harmonia de suas melodias? Por finalmente uma letra tocar minha alma? Era necessário acompanhar a música com a letra, nem todo LP trazia as letras impressas no encarte, quando acontecia aquele disco passava de mão em mão era melhor que aula de ingles para poder acompanhar suas mensagens. O inglês nunca foi meu forte,  em "Blowin' in the wind" fiquei por muito tempo descobrindo as palavras e o significado da musica. Talvez por isso, na ânsia de cantar suas musicas, tenha me detido ainda mais profundamente nas letras e sentido sua solidão, suas duvidas existenciais, sua ansiedade.
           Hoje o sr BDylan é uma unanimidade! eu que gosto de guitarras, solos sonzeira, não encontrava isso nas músicas dele mas outros interpretes fizeram isso , dando uma interpretação mais rock em suas músicas outra, como os Rolling Stones em "Like a rolling stone". 
           E assim mas aprendi a respeitar Sr. Zimmerman, respeito esse que que vem passando de pai para filhos!




quinta-feira, 15 de setembro de 2016

neuroplaticidade


       Esta semana por conta da expectativa de mover os membros parados e conseguir realizar tarefas como enxugar o corpo, usar a faca na refeição, sem falar da minha vontade de tocar meus instrumentos, muitas vezes tenho a impressão de estar malhando em ferro frio! Qual será o meu limite? A capacidade de aumentar meu poder neuro /muscular: minha expectativa e das pessoas ao meu redor é sempre muito alta e  a frustração de não atingir os objetivos também é grande e paralisante.  Esse passo de formiguinha da recuperação cansa e surge a vontade de alguma coisa mágica que seja mais rápida (eu sei que não existe mas sonho com essa possibilidade), a  resposta me vem nítida na seqüência.
             A neuroplasticidade - até já escrevi neste blog sobre ela, mas como é assunto novo e polêmico e ainda  me assolou esta semana, resolvi colocá-lo na discussão - é a capacidade do cérebro de se transformar. Até pouco tempo atrás, o conceito era que o cérebro não tinha capacidade de se transformar e recuperar  áreas lesadas.  Com o interesse de esclarecer aqueles que não estão familiarizados com essa terminologia - a unidade funcional do encéfalo - o neurônio é uma célula estrelada que emite vários pequenos prolongamentos chamados dendritos e normalmente um ou dois bastante extensos, os axônios, que se ligam com outros fora do encéfalo na medula espinhal ou em gânglios neurais. Com pequenos prolongamentos os dendritos fazem a comunicação entre os neurônios formando uma rede. 
             Os novos métodos de imagem puderam evidenciar como o encéfalo procura saídas nos casos de perda da funcionalidade de alguma área  por trauma ou a.v.c. O neurônio não regenera, isto é irrevogável, mas essas novas ligações dendriticas quase chegam a substituir o neurônio perdido, assim o cérebro se transforma e procura manter suas funções motoras e cognitivas. Isso demora muito e depende de estímulo que a fisioterapia promove. Deus caprichou no ser humano, nosso organismo é perfeito e é muito prazeiroso entender seu funcionamento e conhecer suas capacidades, sente-se a presença  de Deus o tempo todo sorrindo pelo maravilhoso trabalho executado! É linda a natureza e o homem seu melhor trabalho!   
         É possível fazer uma analogia, apenas com o intuito de simplificar o intrincado funcionamento do encéfalo, se numa casa um cômodo ficasse sem luz seria possível retirar energia de um cabo de um outro quarto e trazer energia ao quarto sem luz, essas novas ligações podem enfim fazer isso. A fisioterapia induz essas novas ligações, também facilitará estes novos circuitos, unindo algumas ligações que são mantidas inativas e essa situação ativa essas conexões  "desligadas" na parte intacta do cérebro. 
          Nos estudos para a recuperação de uma área lesada por um trauma ou por um avc os novos métodos de imagem mostraram aspectos novos e desconhecidos de como o cérebro se transforma para manter a funcionalidade mesmo em casos de lesões graves,   viu-se que até os axônios podem emitir prolongamentos dendriticos coisa desconhecida até nossos dias. A fisioterapia e a repetição de movimentos induz essas novas ligações razão pela qual, não se deve abandonar a fisioterapia mesmo que pareça cansativa, ineficaz e demorada. 
         Enfim não vou ficar livre da fisio, nem minhas terapeutas livres de mim. Essa é a minha vida, buscar meus movimentos perdidos…andar bem, correr, me vestir, ser independente, falta muito ainda..  tenho o que fazer por mais 10 anos ou mais segundo me falou um dos meus terapeutas só não pode morrer antes…vou morrer nada tenho vida e quero vida! vou viver e voltar a tocar como antes é o que eu quero! assim, contando com a neuroplasticidade vou caminhando. Uns dias melhor, outros nem tanto mas sempre em frente! Essa neuroplasticidade é lenta e não há nenhum sinal de que ela está acontecendo, só sabemos que está e só vamos vivendo e deixando o sistema nervoso fazer seu trabalho, mesmo que seja lento! Todos conhecemos sequelados de avc que se recuperaram muito bem depois de alguns anos. 
      Eu serei um desses. 
      Devo principalmente conter minha ansiedade, porque a recuperação definitiva não tem data de entrega.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

agosto chegou e acabou


        A Olimpíada chegou, foi embora, trouxe meu aniversario de nascimento de mamãe, tenho outro, do meu AVC, quando comemoro como outro nascimento!  Trouxe tambem meu irmão, minha cunhada e minha afilhada: puro amor menina linda, carinhosa, inteligente, atenciosa. Meu irmão que agora vem comemorar todos os anos aqui comigo esse dia de repente mais importante ainda. Na infância lá em casa os aniversários não eram tão valorizados, com os filhos passei a enxergar a importância dessa data, depois do AVC cada dia passou a ser um novo 'diaversário" digno de muitas comemorações. A presença da minha família coroa de maneira alegre esses momentos. Família é tudo! Almoçamos juntos diariamente, ótimo convívio, interagimos muito, participamos um da vida do outro. Eu com as minhas dificuldades recebo muita atenção, convites para sair, passear, distrair.. Apesar de Fernando morar longe estamos sempre em contato por fone, skype, whatsapp, falamos todos os dias, assunto que não falta! 
         Agosto trouxe também o Fernando, direto de Los Angeles. Que alegria, que prazer inenarrável ter todos em casa. Afeição, carinho, encontro temperado pela força do sangue comum que aproxima ainda mais as pessoas. Cantoria, dupla de violões, gaita, brincadeiras, piadas.  Muitas histórias, lembranças distantes, "micos", gargalhadas…Nossa querida cachorra sempre entre nós oferecendo companhia e dando e recebendo afagos de todos. Claro, conversas em volta da mesa comendo boa comida e bebendo boa bebida. Come-se e bebe-se muito nestas ocasiões. E o fim de semana acabou… E agosto acabou...
          Agora é tempo de ensaiar para o show dos médicos no início no  outubro. Voz, afinação, respiração, ritmo, fôlego são minhas novas preocupações. Tudo é novo e complicado. Aprender a respirar? Cantar? Eu? E esse tempo friozinho e chuvoso endurece e enche de dor a perna esquerda mas a vida continua. Terapeutas diariamente, Marcella, Fabiana, Suyane, Geisa, e a busca dos movimentos permanece ocupando meu tempo e meus projetos, minha vida.                           
         Aproveito a presença do filho americano para sair, passear, conversar, ficar perto, tomar uma gelada, jogar conversa fora, tirar uma soneca perto, falar do SPFC nossa paixão comum. Anda mal das pernas o nosso tricolor!  Enfim conviver nem que seja por pouco tempo, ele volta pro trabalho no começo de setembro! Vai viver sua vida filho, Deus o acompanhará sempre, como tem sido. Me espere em abril/maio em L.A. Vou ver o melhor por do sol dos EUA. 
         Quando envelhecemos a família se torna ainda mais importante, depois do meu AVC, a ligação com a família triplicou! ficar com meus filhos e a Stella é tudo de bom! das minhas contadas alegrias essa é a maior, a que me pega mais direto no coração, na alma! Puro êxtase!
        Viver em família é VIVER! Mas tem prazer amplificado pelas vitórias dos filhos! Imagino com os netos... que demoram a chegar! Mas hão de chegar no seu tempo! Até lá, estarei bom para pegá-los no colo, hoje só sentado, que chatisse! Mas serei o vô sentado...  que é vô do mesmo jeito só que sentado!