quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Minhas Vitorias


       Vocês que tem acompanhado meus escritos podem ter a falsa impressão que eu estou perdendo do derrame e não foi o que de fato ocorreu, quando cheguei no quarto do hospital Santa Rita, vindo da UTI era como um boneco de pano, não mexia nada da perna e braço esquerdo, não controlava a cabeça que pendia para frente e não conseguia me manter sentado pois o quadril e cintura não seguravam o tórax que pendia para o lado. Hoje ando bem com apoio de um braço, ou cheio de charme com uma bengala canadense. Sento e mantenho minha cabeça alinhada com o corpo.   

       Ainda não mexo o braço esquerdo mas estamos, eu e a Helen, minha querida fisio polaca, concentrando trabalhos nele e, mais um mês e meio, espero estar movendo alguma coisa. Eu não elevava nada o braço esquerdo pela capsulite adesiva, hoje o elevo bem acima da cabeça, enfim, a Suyane, minha fisio meio "japinha", solto meu braço.

       Isto, sem contar que os colegas que iam me visitar no quarto, ao verem a tomo que ficava ao lado da cama, duvidavam que eu saísse dali.

       Quando fiz a craniotomia no dia do AVC, já havia edema cerebral o que dificulta o fechamento da caixa craniana. Houve stress suficiente para mandar avisar meus filhos que a coisa estava feia lá no centro cirúrgico, mas venci tudo e estou aqui.

       Imaginem aquela vontade de beber água e me traziam uma gaze encharcada que era espremida na minha boca, havia uma traqueostomia e o receio de entrar água no lugar errado. Quando bebia água, ela era adicionada a um espessante, era minha água seca como eu dizia. Estava querendo macarrão e pão de queijo, e um belo copo de água e nada disso... Eu dizia que queria beber água de glub, glub, mas demorou até ser liberado beber no copo segurando com minha própria mão...
       
       Sou bastante peludo e meus pelos são muito grossos e compridos, cada sorinho era fixado com várias tiras de esparadrapo que aderiam firmemente aos meus pelos, na hora de tirar o curativo era um tormento, aquela cola não solta com nada então eu reclamava muito com a enfermagem para ir com cuidado e frear o ímpeto de puxar e arrancar tudo aquilo com pelo e tudo. Elas sempre ouviram minhas súplicas e continuo peludo como sempre. Uma vitória, pois depilação definitiva não estava nos planos... Aos peludos aconselho muitos ais para as enfermeiras, elas se compadecem e você sai ileso.

       Aqui agradeço, mais uma vez a presteza e eficiência do meu atendimento, comandado pelo amigo Jair Biato, pois sem a sua presteza e oportunidade dos atendimentos não poderia estar aqui agora contando minhas vitorias.

       Não corro com as pernas, mas o faço com o espírito e com a alma que, com isso tudo, ficaram mais ativas e sensíveis.

       Senti sempre no coração as preces e os bons fluidos dos amigos, família e pacientes, o que me ajudou sempre. Muito obrigado gente! Continuem, porque tenho muito pela frente, ainda não estou pronto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

As dores do AVC




       Este post pode parecer ser sombrio mas tem a pretensão de ser informativo, ajudar parentes e contatos de “derramados”, até ser didático se preferirem, digo isto porque até ser surpreendido por esta desgraça não imaginava que estas sequelas fossem tão doloridas, pois uma perna que tem a sensibilidade bem fraca para o tato e para o movimento, não devia doer tanto. Ruim para sensações e boa para dor.


       Ainda no hospital, logo após o AVC eu já sentia muitas dores na perna, chamadas de “neuropáticas”. Lá eu usei um massageador percussivo emprestado pela amiga e microfisioterapeuta Riane, que dava um pequeno alívio, mas não era aconselhável à noite pois acende o massageado e causa insônia. Muito obrigado pois já durmo mal sem isso, então parei, remédios não foram eficientes no alívio destas dores. Dói porque a musculatura que atrofiou, quando solicitada num exercício fisioterápico, dói como se você tivesse corrido, ou feito academia, mas a dor é mais forte e limitante, não tem posição que alivie, é persistente e você acaba por se acostumar. Movimentar passivamente costuma aliviar, o que é bom.

       Atualmente sou incomodado por várias dores a saber, dores na coluna devido a má postura, no ombro esquerdo, que “caiu” pela atrofia dos músculos que mantém aquele segmento ajustado. Também sinto um formigamento/queimação/coceira no períneo à esquerda que atribuo empiricamente à compressão, tração do plexo sacral devido a atrofia dos glúteos à esquerda, muito persistentes que se irradia para a perna até o tornozelo. A fisio diz que essas parestesias precedem o retorno da sensibilidade mas já tenho esse incomodo há tempos e não voltou nada. Eu tomo um medicamento prescrito nestas neurites que não funcionou nada. Também tenho uma queimação chatíssima no tórax desde abaixo da axila até a cintura, sempre do lado esquerdo, além de queimação no terreno do nervo facial desde o conduto auditivo, descendo pelo pescoço, lábio inferior. Chega, não? As vezes jogo água fria no local da queimação, que dá alívio momentâneo e efêmero mas bem pouco prático, só um pequeno refresco mesmo...  



       Enfim, o AVC incomoda muito com essas dores até agora insolúveis. O blog está aberto para tratamentos, remédios, soluções, simpatias, poções, bruxarias e outras alternativas que alguém tenha usado com sucesso pra amenizar essas agruras. Hoje essas dores me incomodam mais que a própria imobilidade da perna e braço esquerdos. 

       Em tempo: iniciei há 2 dias a carbamazepina 200mg, e as dores da perna e períneo melhoraram bastante. Ruim é a sonolência.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Fim de semana em Sampa

       Fim de semana em Sampa, aniversário da minha primavera, pois tenho uma primavera quase irmã que, claro, deu flores lindas e igualmente queridas, que foi encarado também como teste, de como enfrento avião, aeroporto, lugares novos, espera, paciência que diminuiu muito, escadas, entrar e sair do avião...

       A viagem demorou 3 horas, entre aeroportos e voo até Sp, que passaram rápido pelo bom papo do meu amigo Laurindo Furquim. Fui obviamente na prioridade, aquelas 3 primeiras poltronas que tem mais de 1 metro de espaço pros pés. Mas é duro ficar sentado. A atrofia dos glúteos, me faz sentar em algum músculo atrofiado e não apropriado para receber meio peso do corpo então eu modifico a sentada e ponho mais peso à direita me fazendo entortar a coluna. Com 10 minutos estou muito dolorido no glúteo que irradia para perna esquerda e na  coluna. 2h de viagem sem sair do lugar é um tormento, mas é um teste pra outras viagens, visitar o Fernando em Los Angeles, 15 horas direto... já viu, né! Se eu ainda fosse de executiva que vai deitado...
 
       Subi em Maringá de cadeira mecânica (que sobe sozinha), dá um medinho, mas bem administrável. A escada do avião eu posso subir sozinho. Eu pensei que os degraus eram muito altos, mas são como qualquer escada bem possível, eu desci do avião em Maringá com minhas pernas. A escada balançava e deu uma certa instabilidade, mas nada muito apavorante, em SP desci no finger e fui de cadeira de rodas conduzida pela funcionária da Gol até as malas sem crise, enfim viajar é possível, ainda mais se for como prioridade, aí fica bem mais fácil. Mas ainda preciso melhorar a musculatura, o preparo físico e a resistência, liberdade de andar e se locomover na escada rolante e na esteira rolante que é muito difícil para gente com minhas limitações, preciso treinar no shopping Avenida Center e ainda aproveitar e comer um Divino Crepe, nos filhos. Todo esse empenho para uma grande viagem sempre vale a pena porque do lado de lá tem o sorriso largo do Fernando me aguardando. Então aguenta ae brodi! Tomarei uma bomba para ajudar pois ter o Fernando como companhia vale qualquer esforço. Ele é ótimo sempre, mas como anfitrião é inigualável, com certeza nos levará conhecer os melhores restaurantes e recantos de LA e adjacências com toda a gentileza, atenção e cuidado. 


       Enfim, foi mais uma etapa vencida. Em Sp correu tudo dentro do esperado. O transito, as distancias, a correria me fez ficar meio tonto, o cansaço uma deitadinha tira. Mais um desafio vencido, que venham outros, vou vencê-los todos. A alegria de ver primos, irmão e amigos é um grande estímulo. 

       Em tempo: Fernando meu filho, feliz aniversário. Que Deus continue olhando por vc.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Caindo a ficha

       Quando penso no período que fiquei internado, me pergunto o que eu pensava de estar ali. Recolhi com a família e amigos que não pensava, ficava ali, somente. Na UTI estava bem sedado para suportar a entubação então eu dormia a maior parte do tempo. Fui extubado e já no quarto, sem sedação, apenas com a traqueostomia, falava baixo, pouco claro, cansava logo e dormia muito, não pensava. Estava tão fora de órbita que quando fui transferido para o quarto, pedi para (em tempo: não lembro nada do coma, tenho alguns lampejos da família lá no quarto, das injeções na veia mas nada de mergulho no inconsciente ou experiência mística) trazerem meu bandolim para distrair e passar o tempo: 

       - Está de férias? Num hotel? Parece? mas o instrumento foi trazido. Até que uma tarde, **caindo a ficha** recebi a visita do amigo Filipe, violão sete cordas do meu conjunto de chorinho, logo armamos um som ali no quarto. Demos alguns telefonemas e chegou o Joaquim com o cavaquinho e o José Domingos com o pandeiro. 

       - Vamos tocar! e me deram o bandolim, o acompanhamento iniciou e cadê começar o solo: minha mão esquerda não se movia, não saiu nada. Que frustração!! Os amigos chorando pelos cantos e eu ali parado com o bandolim a postos e silencioso. Fui entendendo que estava ferrado...

       Ir ao banheiro não era permitido sozinho. Nunca evacuei na frente de tanta gente diferente, estranha, eu não entendia, ninguém precisa me ajudar, vou ao banheiro há 60 anos eu sei como fazer, mas você não sustenta o corpo sentado, cai de lado, então, tudo bem. Então vamos mesmo assim, ainda pensava em mim normal, sem limitações. Parece que a cabeça não quer aceitar. Só quando cheguei em casa ficaram bem evidentes as limitações. Tudo o que era banal e corriqueiro virava uma operação de guerra, ficou então bem clara a doença ...aí caiu a ficha com tudo! Tinha cuidadores experientes da Home Angels para me auxiliar, mas era bem frustrante não conseguir fazer nada sem ajuda. É, a ficha caiu! 
       
       O mais difícil de toda esta encrenca, mais que mexer a mão ou correr, para mim foi aceitar essa nova condição, até hoje sou meio cabreiro neste particular. Aceitar as limitações e acreditar que há uma boa vida a ser vivida deste jeito, é o que tento todo dia: uma boa vida. Nem sempre me convenço. Mas erro ao comparar com a vida que eu levava antes, assim voltar para o tênis e para a música é o que eu espero. Não se terei destreza manual para tocar meus instrumentos como antes. Tenho que acomodar o talento com a nova condição física do agora. Enfim terei que começar de novo. 

       Outro Celso. É o que preciso aceitar.