quinta-feira, 26 de março de 2015

Meu dia pos AVC


       Terça feira cheia gente! Comecei na segunda, pois passei a noite em claro. Esperei o avião aquecer os motores pra subir, é +-5:30h, já está claro e levanto para ir ao banheiro sem acender as luzes do quarto e sem incomodar ninguém. No fim da manhã, já tem a microfisioterapia com a Riane, após o almoço, fisio com a Suyane, em seguida, fono com Raquel – grávidinha de 10 semanas –, com seus exercícios: Bã, Tã, Kãrrrggrgrgrggrgrgr... aí chegou a Helen com sua estimulação elétrica para o braço esquerdo e às 17h minha personal Marcela Chinaglia me esperava no Maringá Clube, para uma sessão de academia. Encontrei bons amigos e bons papos por lá. Comi o melhor pão de queijo do mundo. Em casa só depois das 18:30.  

       Essa é minha rotina quase diária, muitos exercícios, muita repetição, muita chatice para falar a verdade. Existem momentos que o melhor é ficar prostrado frente à TV, de pijama, se puder, sem pensar nem agir. Mas é disso que preciso? Repetir, refazer, e fazer de novo? Então vamos que vamos...

       Mesmo pós AVC, sem fazer piada, o que continua igual é minha cabeça, isto é, a memória, o raciocínio, a capacidade de falar. Não a parte que comanda o lado esquerdo, claro, e que me impede de fazer coisas que me faziam ser conhecido, como a música e a medicina. Que me fazem muita falta, muita falta!. Mas a memória, a criatividade e a efervescência continuam aqui. Ainda não entendi bem como acomodar esse velho Celso irrequieto, cheio de ideias e invenções nesse novo esquema.



       Vejam a insônia! Continua a mesma, nunca fui de dormir cedo e nem bem. Sempre gostei da madrugada, as vezes chegava em casa tarde e ainda assim ia para o violão ou para TV, como se lutasse contra o sono. É que na hora que os outros cérebros normais estão querendo repouso, o meu acende, fica uma efervescência criativa impossível de ignorar, então, é na alta madrugada me vem as ideias, os contos, as vezes histórias longas e completas, letras de música, arranjos musicais entre outros. 

       Como viram meu dia e noite é cheio de compromissos, minha profissão é me reinventar com essas limitações, digo-lhes que é bem penoso, sempre me vem na cabeça o eu de antes que eu muitas vezes lembro até melhor do que realmente era. A adequação deste corpo com esta cabeça não está sendo fácil, as vezes fico paralisado e tiro umas tardes de folga – uns sábados atrás acordei 19h, é mole?

quinta-feira, 19 de março de 2015

Mais um post didatico; a Heminegligência

  
        É A DIFICULDADE OU PERDA DA HABILIDADE DE               REAGIR A ESTÍMULOS  SENSORIAIS  E MOTORES,               SOMÁTICOS, OLFATÓRIO, AUDITIVO OU VISUAL


       O cérebro é perfeito, todos sabemos. É o maior capricho de Deus com os humanos. Indubitavelmente por ser perfeito ele é econômico e não trabalha se não for preciso. Se você coloca um tampão num olho perfeito, depois de um tempo enxergando nada, você fica cego neurológico daquele olho, isto é o cérebro “desliga” aquele olho. A heminegligência é fato que ocorre com sequelados como eu. Por não sentir nem mexer um lado do corpo, o cérebro apenas negligencia aquele lado que além de funcionar mal pela sequela também claudica pela heminegligência. Aqui em casa brincamos que aquele lado é do vizinho, então faço a barba pior do lado esquerdo, o cabelo deste lado é mal penteado e a turma aqui: 
       - Olha o vizinho! - Todos estão me dando estímulos, brincando, chamando atenção. Mas não é o vizinho! É a minha mão, minha barba, meu cabelo, meu braço! E eu não reconheço. Não sinto. Não faz parte de mim! Triste mas real!!! Outro eu. Bem que gostava daquele Celso. Agora que estava me acostumando com aquele... Para me acostumar com este vai levar mais 60 anos. Espero que o talento, a intuição e a modéstia estejam aqui preservados e até melhorados, porque não? Vamos ver, quando chegar a hora eu conto, esperem comigo. 
                   
       Minha fisio Helen está concentrando trabalhos no membro superior esquerdo: - De quem é este braço e esta mão?, - mexa seu braço esquerdo! olhe ele mexer não tire os olhos daqui. E eu pensando: - como mexer o que não sinto. E ela – Não precisa sentir, só mexer. Digo a vocês, mexam suas asas. Vocês vão saber como fazer? Por onde começar? É como me sinto, ao mexer meu braço insensível. Tem um esboço de movimento que é um bom começo, ora o trabalho continua, sofram a angustia da imobilidade comigo amigos leitores, mas estou indo bem, faz parte, todos passam por isso.  
                           
       A heminegligencia não é exclusiva do paciente que sofreu AVC, uma vez que ocorre tanto em AVC como em TCE (traumacranioencefálico), contanto que a lesão seja temporoparietal  (exatamente a minha lesão cerebral) do hemisfério dominante e consequente plegia esquerda. Pouco se sabe sobre a heminegligencia, não sendo atribuída a déficit sensorial ou motor. Logo após o AVC, venho participando do método supera que é um método de exercícios estimulantes cerebrais e cada um deles usa uma área específica do cérebro para ser realizado, no fim dos exercícios todo o órgão foi estimulado favorecendo a neuroplasticidade. Um dos primeiros exercícios que fiz foi desenhar um rosto de homem numa folha, claro que só fiz metade do rosto... 

       Esse era, como foi dito no início, um post didático e ficou muito econômico, tímido, incompleto até, pedi ajuda para minha fisio Helen Cristophel, que lida mais com esses casos, para me ajudar, corrigir e complementar mas ainda voltarei ao tema, tão importante no dia a dia dos “derramados” e seus relativos. E aproveitem para entender um pouco desse assunto árido e complexo. Até quinta!

quinta-feira, 12 de março de 2015

Visita a bienal

       Queridos possíveis leitores, a estrutura de blog dá liberdade ao blogueiro de escrever sobre muitos assuntos, vou exercer essa liberdade hoje e vou postar um conto que escrevi com a cabeça ainda inteira. Espero que algum diretor de cinema de Hollywood leia, porque acho que dá um bom filme de suspense!

      Vamos lá: 
  
Visita a bienal

       1988 - Ela, que era uma paulistana super em dia com as novidades, resolve ir à bienal que sempre visitava, adorava ver aqueles artistas saírem de órbita com suas instalações malucas, mas antes ligou para o marido: 

       - Deu positivo!, você vai ser papai, não fui ao médico, vou amanhã. Só peguei o exame. Estou entrando na bienal, você fica enrolando, nunca tem tempo, acaba em duas semanas assim eu te explico o que olhar... é claro que precisa, metade você não entende e ainda fica bravo. Hoje verei tudo no meu ritmo, não se preocupe papai estou me sentindo ótima e quero andar um pouco. Falamos em casa à noite.

       Entrou: Aquela atmosfera fantástica mexia com ela, foi olhando e absorvendo o mais que conseguia, lembrou do marido algumas vezes: isto ele adoraria, o artista é da Macedônia, longe! e maluco. Passou por uma sala vazia com um aquário enorme onde boiavam umas bolas que pareciam ter expressões, medo, angústia, desespero, havia uma luz amarela, forte num dos vértices do aquário seu olho encontrou o raio de luz e ela sentiu-se zonza e atraída, não conseguia desviar os olhos daquela luz sentiu que sua consciência a abandonava, agora sentia que flutuava, deve ser a gravidez, a pressão pode ter caído. Não devia ter vindo sozinha é muito cansativo, esse monte de luz e barulhos, cores e toca andar, andar, andar.

       O marido a esperava no pequeno apartamento do casal, já passava das 8h e nada da mulher. Ficou apreensivo, logo hoje que virei papai, ela some, ia estourar uma champagne... foi passando o tempo e nada da gravidinha. Ele saiu de casa, foi até a bienal procurá-la. Ao chegar viu o carro dela estacionado. - Não saiu daí. Entrou olhando pra tudo e procurando a mulher, o celular dava fora de área, avisou a polícia do desaparecimento. Como esperar 48h? ela está na bienal, seu carro no estacionamento, não saiu de lá! ele passou pela sala do aquário com as bolas achou que uma delas, logo aquela que tinha outra bolinha miniatura dentro queria falar com ele, pensou: - esses artistas!...logo saiu de lá, tinha que procurar, foi até o posto médico falou com os seguranças e faxineiras: ninguém viu nada estranho, - Já ela liga, fique tranquilo, está cheio de gente aqui, pode ter sentado pra descansar e desmaiou ou adormeceu, grávida é assim mesmo, desmaia muito!
       
       O marido ficou por lá vagando até 1 da manhã, depois vencido pelo cansaço e pelo desânimo foi pra casa, cheio de esperança de encontrá-la sentada no sofá, zapeando com os pés elevados, como era de seu feitio, mas não, encontrou apenas o silencio do apartamento vazio, ela não voltara:
       - Nossa o que aconteceu?

       Quando a bienal terminou ele voltou lá esperançoso. Nem o próprio artista se importou muito. Deu conta que tinha uma bola nova com uma miniaturazinha dentro, - tem uma nova! - quem pôs outra aí? - deu cria!...E o caso foi esquecido por todos. Só os jornais repercutiam com sensacionalismo “grávida desaparece na bienal de SP”. A polícia fez seu trabalho e vasculhou tudo em volta, não viram nada, claro.

       Dias depois ela chegou em casa confusa, meio abobalhada : - aquela luz...acho que entrei dentro da luz amarela, grudenta, parece que eu flutuava, fiquei lá não conseguia falar, nem me mexer, vi você lá, mas estava dentro da luz! com medo que ela também te pegasse. Agora está bom. Consulta amanhã, algumas náuseas, só.

       Com o tempo até o casal esqueceu o acontecido, apenas ficaram longe da bienal por alguns anos.
                   
       Esses artistas...

quinta-feira, 5 de março de 2015

Vitórias e lembranças....



       Esqueci de uma vitória bem importante e não queria deixar passar, por isso vou contar: quando estava de alta do hospital, principalmente a minha amiga infectologista Ana Gurgel, lembrou que eu deveria ter um acesso, uma veia calibrosa pega, pois iria tomar 28 ampolas de vancomicina, 14 dias, então a sugestão foi passar um intracath, que ficava dentro do átrio direito, e é ótimo porque aguenta ficar este tempo todo, não incomoda os movimentos e se adequava muito bem às minhas necessidades. Como era vip, cheio de frescura, fui ao centro cirúrgico passar o tal aparato, que se trata de uma agulha calibrosa que penetra na pele abaixo da clavícula e acessa a veia infra clavicular, depois o cateter é ajustado para entrar mais e chegar ao átrio, é procedimento corriqueiro e todo paciente de UTI tem seu acesso central para a medicação. 


       Claro que eu venho de um tempo, década de 80, que esse ato começou a ser utilizado como rotina e a punção desta veia não era fácil. Como estudantes fazíamos fila para passar um desses, naquele tempo a técnica era provavelmente dolorosa, apesar da anestesia local que aplicávamos . Entrava-se com a agulha apontada para o fim da clavícula e era virada dentro da pele por baixo da clavícula e torcíamos para a punção voltar sangue, o que significava que atingíamos a veia necessária. Afortunadamente nunca mais precisei passar um intracath nestes anos todos, mesmo trabalhando no PS do Santa Rita, frequentado por pacientes graves. Sempre tinha um intensivista mais treinado para fazê-lo e eu o deixava realizar o procedimento, o que era sem dúvida melhor para todos...


       Voltei pra casa e 2 ou 3 dias depois comecei a sentir muita dificuldade de respirar, sentia como se tivesse uma pedra em cima do meu peito, ora meu cérebro funcionante de médico sabe que isso não está certo, voltei para o gigante da colina, conhecido como hospital Santa Rita para avaliação. Fiquei orgulhoso de adentrar andando, com ajuda, mas com minhas pernas. Os que me viam logo manifestavam sua surpresa ao me ver andando. Fiz questão, apesar da distância, de subir até o posto de enfermagem para me exibir a equipe de atendimento que me acompanhou com eficácia e carinho na internação e foi uma festa! eu por dentro me orgulhava em cada cumprimento: -Estou aqui andando! Porém foi diagnosticado um pneumotórax, o que significa que na passagem do intracath, a ponta da agulha perfurou o pulmão que murchou e essa é complicação frequente neste procedimento, aqui atribuído a esmeraldite: lembro que a esmeralda, é a pedra que representa a medicina, e dizemos que, se alguma intercorrência desagradável vai acontecer, provavelmente será com paciente médico ou seu relativo.


       Voltando ao meu pulmão murcho e ao furinho que me impedia de inflá-lo, causando o desconforto respiratório, precisei fazer uma drenagem torácica e fiquei mais 2 dias no hospital, até o pulmão expandir de novo, tirar o dreno e receber alta.

       A drenagem torácica foi feita no PS do Santa Rita com a família em torno,  procedimento que eu sabia ser sob anestesia local, quando passou por ali minha colega e amiga Dra Naiene e lhe pedi anestesia, já tinha veia pega, então era só injetar o anestésico que faz dormir e acordar rapidamente (obs.: é aquele do Michael Jackson). O anestésico foi aplicado e eu apaguei. Com o orifício recém aberto, no lugar certo, foi posicionado dentro da caixa torácica o dreno que é um tubo de plástico de +- 1cm de  diâmetro e dois dias depois o dreno foi tirado e alta prá casa, eba! Meu filho que estava a meio metro da função quando viu o médico penetrando o orifício com o dedo, não deu conta e saiu de fininho, depois comentou que pensou que eu seria levado ao centro cirúrgico para aquilo e ficou bem impressionado com a simplicidade do procedimento.


       Como estudante eu não acreditava muito na anestesia local, por não saber ainda utilizá-la bem. O paciente às vezes reclamava de dor no final do procedimento, eu tinha dúvidas da sua eficácia. Isso mudou quando, no ambulatório de cirurgia, meu chefe me mandou amputar o dedo de um paciente diabético, olhei espantado e perguntei, aqui?? e a anestesia? e ele disse impassível. - Local oras!  - Então venha me ensinar. E claro, ele veio, a local foi aplicada e o dedo amputado sem nenhuma dor. Aí pensei, esse treco funciona mesmo! e mudei meu conceito sobre a eficácia da local...


       Ao contar essas idas e vindas ao hospital surgiram-me lembranças do tempo de estudante, e entre histórias de vitórias e recordações de faculdade, contei a vocês mais um episodio desse meu longo caminho de reabilitação.