quinta-feira, 5 de março de 2015

Vitórias e lembranças....



       Esqueci de uma vitória bem importante e não queria deixar passar, por isso vou contar: quando estava de alta do hospital, principalmente a minha amiga infectologista Ana Gurgel, lembrou que eu deveria ter um acesso, uma veia calibrosa pega, pois iria tomar 28 ampolas de vancomicina, 14 dias, então a sugestão foi passar um intracath, que ficava dentro do átrio direito, e é ótimo porque aguenta ficar este tempo todo, não incomoda os movimentos e se adequava muito bem às minhas necessidades. Como era vip, cheio de frescura, fui ao centro cirúrgico passar o tal aparato, que se trata de uma agulha calibrosa que penetra na pele abaixo da clavícula e acessa a veia infra clavicular, depois o cateter é ajustado para entrar mais e chegar ao átrio, é procedimento corriqueiro e todo paciente de UTI tem seu acesso central para a medicação. 


       Claro que eu venho de um tempo, década de 80, que esse ato começou a ser utilizado como rotina e a punção desta veia não era fácil. Como estudantes fazíamos fila para passar um desses, naquele tempo a técnica era provavelmente dolorosa, apesar da anestesia local que aplicávamos . Entrava-se com a agulha apontada para o fim da clavícula e era virada dentro da pele por baixo da clavícula e torcíamos para a punção voltar sangue, o que significava que atingíamos a veia necessária. Afortunadamente nunca mais precisei passar um intracath nestes anos todos, mesmo trabalhando no PS do Santa Rita, frequentado por pacientes graves. Sempre tinha um intensivista mais treinado para fazê-lo e eu o deixava realizar o procedimento, o que era sem dúvida melhor para todos...


       Voltei pra casa e 2 ou 3 dias depois comecei a sentir muita dificuldade de respirar, sentia como se tivesse uma pedra em cima do meu peito, ora meu cérebro funcionante de médico sabe que isso não está certo, voltei para o gigante da colina, conhecido como hospital Santa Rita para avaliação. Fiquei orgulhoso de adentrar andando, com ajuda, mas com minhas pernas. Os que me viam logo manifestavam sua surpresa ao me ver andando. Fiz questão, apesar da distância, de subir até o posto de enfermagem para me exibir a equipe de atendimento que me acompanhou com eficácia e carinho na internação e foi uma festa! eu por dentro me orgulhava em cada cumprimento: -Estou aqui andando! Porém foi diagnosticado um pneumotórax, o que significa que na passagem do intracath, a ponta da agulha perfurou o pulmão que murchou e essa é complicação frequente neste procedimento, aqui atribuído a esmeraldite: lembro que a esmeralda, é a pedra que representa a medicina, e dizemos que, se alguma intercorrência desagradável vai acontecer, provavelmente será com paciente médico ou seu relativo.


       Voltando ao meu pulmão murcho e ao furinho que me impedia de inflá-lo, causando o desconforto respiratório, precisei fazer uma drenagem torácica e fiquei mais 2 dias no hospital, até o pulmão expandir de novo, tirar o dreno e receber alta.

       A drenagem torácica foi feita no PS do Santa Rita com a família em torno,  procedimento que eu sabia ser sob anestesia local, quando passou por ali minha colega e amiga Dra Naiene e lhe pedi anestesia, já tinha veia pega, então era só injetar o anestésico que faz dormir e acordar rapidamente (obs.: é aquele do Michael Jackson). O anestésico foi aplicado e eu apaguei. Com o orifício recém aberto, no lugar certo, foi posicionado dentro da caixa torácica o dreno que é um tubo de plástico de +- 1cm de  diâmetro e dois dias depois o dreno foi tirado e alta prá casa, eba! Meu filho que estava a meio metro da função quando viu o médico penetrando o orifício com o dedo, não deu conta e saiu de fininho, depois comentou que pensou que eu seria levado ao centro cirúrgico para aquilo e ficou bem impressionado com a simplicidade do procedimento.


       Como estudante eu não acreditava muito na anestesia local, por não saber ainda utilizá-la bem. O paciente às vezes reclamava de dor no final do procedimento, eu tinha dúvidas da sua eficácia. Isso mudou quando, no ambulatório de cirurgia, meu chefe me mandou amputar o dedo de um paciente diabético, olhei espantado e perguntei, aqui?? e a anestesia? e ele disse impassível. - Local oras!  - Então venha me ensinar. E claro, ele veio, a local foi aplicada e o dedo amputado sem nenhuma dor. Aí pensei, esse treco funciona mesmo! e mudei meu conceito sobre a eficácia da local...


       Ao contar essas idas e vindas ao hospital surgiram-me lembranças do tempo de estudante, e entre histórias de vitórias e recordações de faculdade, contei a vocês mais um episodio desse meu longo caminho de reabilitação.

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