quinta-feira, 28 de maio de 2015

A Carniça



       A música sempre foi minha válvula de escape que junto com o esporte, sempre me acompanhou por toda vida. Como já disse anteriormente estas características, mais o fato de não fumar nem beber e não comer gorduras não me deixam compreender este meu AVC. É certo que meu avô paterno, o seu Juca, músico como eu, flautista, também teve um derrame evidenciando um traço genético fraco pois sou seu neto e não filho, o que mostraria a genética mais forte.

       Vou lhes contar da Carniça, meu primeiro grupo de choro que iniciou suas atividades em 1971/1972

       Estudava no primeiro ou segundo ano da faculdade de medicina quando ganhei no natal o bandolim da Stella, que soube explorar muito bem o presente. Por carta e por telefone foi dando dicas do que era e eu tinha que adivinhar. Disse que era verde, tinha cabo e estava guardado embrulhado num lençol no armário. Impossível acertar, não? e assim brincamos várias semanas, ela estava em Maringá com os pais e eu viria no natal depois de encerradas as aulas da faculdade.  

       Uma tarde depois de voltar a São Paulo lá fui eu na casa do Xico Leão meu colega de colegial, com quem estudei para o vestibular que caíra de cama com uma hepatite brava, levei meu bandolim pois o Xico era um bom violonista e gostava  muito de música. Já tínhamos tocamos  juntos antes numa banda de rock do colégio São Luis, mas esta será uma outra história, aguardem! Naquela tarde tocamos  alguns sambas com ênfase para o  Chega de Saudade no arranjo do Jacob e do Zimbo Trio: estava dado o pontapé inicial do conjunto regional A Carniça! 

       Precisávamos de um violonista de 6 cordas e um de 7, não conhecíamos nenhum da Santa Casa, pois era prioridade um conjunto só de estudantes de medicina. Acabamos, por necessidade, incorporando estranhos à escola, o meu amigão Mingo Mero recomendou seu primo Cesar Brunetti que era professor de violão e iria gostar do projeto, foi muito bem aceito e um verdadeiro ganho para o grupo pois ele é ótimo compositor além de violonista. Logo descobrimos o Alex Nicastro, residente da cirurgia vascular e roqueiro de origem, que se juntou a nós com o 7 cordas e estava montado  o regional, o chamamos Carniça, pois sempre que íamos tocar em algum lugar aquele grupo de urubus (nossos amigos) ia atrás.

       Tocávamos muito no centro acadêmico e em outras festas de amigos da faculdade, ensaiávamos e tirávamos choros às sextas feiras no sítio do Brunetti, na granja Viana, perto de SP. Acabamos incorporando um pandeirista, o José Nicolau e meus irmãos Fabio e Byron na percussão, com o Xico no cavaco e eu no bandolim. Daí pra frente, foi só estudar os choros e ensaiar. Fomos melhorando sendo convidados para tocar aqui e ali, aumentando o repertório.   

       Stella me deu o bandolim sem preocupação de sonoridade e marca, claro, simplesmente acendeu minha atenção para novas possibilidades musicais e para o choro, que eu agradeço sempre, mas  não era instrumento de luthier nem poderia ter sido pois nem eu sabia que tocaria bandolim um dia.

       No meu aniversário de 1976 estranhei minha mãe ter comprado docinhos e salgadinhos além de um bolo, coisa incomum nos meus aniversários e toda Carniça estava presente junto com meus irmãos. Pensei: aí tem coisa! Mancomunados com meus pais prepararam uma bela surpresa em casa e claro: vamos tocar. Fui pegar meu bandolim mas no lugar do antigo estava um outro novo da luthieria Soros, como dos grandes bandolinistas da cidade. Uma beleza de instrumento, com escala de ébano e madre pérola ao redor do ouvido. Presente da carniça! era coisa de profissional, eu o tenho até hoje. O som continua lindo e macio de tocar, deu umas entortadas na caixa de ressonância pela variação do clima, mas foi todo restaurado aqui em Mgá e está como novo. Fiquei nas nuvens com a surpresa era leve e muito sonoro.

       O grupo era a vedete das festas do centro acadêmico da Santa Casa, éramos frequentes lá, além de festas em casas de amigos. Com o tempo o Cesar Brunetti foi se revelando como compositor e se afastando da Carniça, uma pena para nós mas ótimo para ele que faz da composição de música para comerciais o seu trabalho. Você lembra do pipoca com guaraná...? e brasileiro adora feijoada?...é da sua lavra o seu trabalho.

       Assim foi minha iniciação no choro que só voltei depois de 25 anos sem tocar esse instrumento, com o convite dos amigos do  Enxó de Bainha aqui em Maringá. (faz parte da tradição meus conjuntos terem nomes estranhos, mas isso também é outra história....)

       Posto uma foto histórica da Carniça no festival de talentos do Clube Harmonia de Tennis em 1976. Da esquerda para direita Cesar Brunetti, Alex Nicastro ainda com cabelo no 7 cordas, Celso no bandolim, Xico Leão no cavaco, Fabio, meu irmão mais novo no tamborim, José Nicolau no pandeiro e meu irmão mais velho Byron na timba. 



2 comentários:

  1. História incrível Celsão , muito legal saber o começo da sua história na música ! Hehe

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  2. Sensacional essa história Celsão, já tinha ouvido algumas partes dela (de quando ganhou o Soros), mas não com todos esses detalhes. Esse bandolim realmente soa maravilhosamente bem. Ele está muito bem cuidado. Impressionante, também, sua boa forma nele depois de 25 anos sem tocar ... Você muito nos ensinou e continua ensinando. Forte abraço. Filipe Côgo.

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