Estudei na Santa Casa de
Misericórdia de São Paulo de 1972 até 1978, na XI turma.
Os hospitais da Santa Casa, por serem muito
antigos e estruturados serviram de hospital escola para várias faculdades que
ainda não possuiam hospitais para absorve-las, o hospital das clínicas da USP
só foi inaugurado em 1944 , até este momento a USP usava a Santa Casa como
hospital escola. Relembrei este fato no samba enredo que compus no terceiro ano
e que pegou muito bem entre os alunos. Tínhamos prova de patologia e nos reunimos
em casa para estudar, cada um com seu caderno de anotações de aula e mais o livro
texto para complementação, ficamos até tarde e o papo acabou evoluindo para
outros assuntos. Claro, o amor e o engajamento pela nossa escola eram os
preferidos dos participantes daquele grupo. Apesar de eu ter
ido dormir tarde e ter de acordar cedo para a prova, tive uma das minhas
insônias criativas com um assunto martelando na cabeça, fui para o violão e a
música saiu praticamente pronta. No dia seguinte fui pra o laboratório, onde
tínhamos prova. Com o samba na ponta da lingua fiz a avant premiere do “ Verdão do Arouche”, pra minha
turma : lágrimas e abraços ! foi um sucesso e passei o dia inteiro cantando o
samba na cantina pras outras turmas, vários grupos de colegas, todos ligados a
movimentos estudantis, e invariavelmente bem recebido foi aumentando minha
expectativa,
queria cantá-lo para meus companheiros de música...
Que prazer gente
quando, na minha formatura em que fui o orador, alguém gritou da assistência : -
Canta o Verdão! eu comecei e a estudantada continuou, que emoção gente! Num dos
nossos jantares de encerramento com os professores do curso, o prof. Hungria,
da ortopedia, sempre muito sisudo e rigoroso me pediu a música, agora só para os professores que como
os alunos gostaram muito e se emocionaram. Os mais velhos com certeza viveram
aquilo que o samba trata.
Transcrevo aqui a letra:
Neste samba,
relembramos velhos
tempos
que o passado
apagou ,
mas que agora recordamos,
Santa Casa foi a
primeira faculdade ,
primeiro hospital escola de todo estado de São
Paulo ,
de todas vc é a
primeira chama
das outras vc é a irmã mais velha,
com um passado de muita glória e tradição
cravado a ferro no
meu coração
mas chegou! Chegou
chegou, chegou
Verdão do Arouche recobrando seu valor
vai lá, vai lá santa
casa! areguá!(este era o nosso grito de guerra)
tire o chapéu que nossa escola vai passar
A
Santa Casa fica a duas quadras do Largo do Arouche no centro de São Paulo, e verde
é a cor da medicina. Até vejo a Batusanta, bateria nota 10 ( que fui diretor
por 6 anos) da Santa Casa, na avenida marcando o ritmo cadenciado e a
estudantada cantando uníssono e forte, com funcionários e professores. Daria
uma bela evolução. Deveria propor isto para o centro acadêmico... participar do
carnaval de SP seria lindo, mas não seria uma boa propaganda para uma faculdade
de medicina da envergardura da nossa, não?
É sempre um
prazer encontrar ex alunos da minha faculdade e dizer: -Sou o Bodão (meu apelido
de escola), aquele que compos o Verdão do Arouche! que alegria, minha musica se
tornou o hino dos encontros, intermeds, eventos esportivos, formaturas... Poxa saí da escola há 35 anos gente! Há alguns
anos recebi a incumbência da associação dos ex alunos de regravar o samba e
enviar a SP pois com tanto tempo sendo cantado sem minha presença, eles temiam
que a musica tivesse assumido vida própria e se afastado muito da versão
correta. Fiz isso e o samba vai continuar com a versão do compositor . A MINHA
versão, nascida do orgulho e do amor por uma escola, por uma profissão, que
ainda cresce a cada dia!
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