Olá gente! Mais um blog. Desta vez vou
contar episódio ocorrido comigo e minha família no verão de 1988, por coincidência
o ano do desastre do Bateau Mouche. Claro que nada tem a ver com meu AVC ocorrido
26 anos depois, mas fico remoendo nestes tempos de “ócio”, o que poderia ter
acontecido.
É uma boa história, melhor ainda porque
é verídica. Estávamos de férias, na magnífica casa dos primos Beth e Marcio em
Ilha Bela, e o Marcio que tinha fixação por esses brinquedinhos de mar. Havia
recém adquirido uma lancha de 25 pés com motor volvo que puxava esqui e
resolvemos ir até a baia de Castelhanos que fica do outro lado da ilha, no lado
oceânico. Nunca conseguíamos acordar cedo para esse passeio, pois as atividades
noturnas iam até altas madrugadas. Ouvíamos sempre a família avisar:
-
Respeitem o mar, que é traiçoeiro e tem suas regras, sair de lancha sempre o
mais cedo possível! Neste dia, até juntarmos
as comidas e as pessoas já era bem mais de onze. O dia estava lindo e o mar
calmo, uma hora depois de motor a toda chegávamos ao nosso destino, uma linda
praia desabitada com areia branquinha e deserta, vários iates e lanchas estavam
por ali também desfrutando o lugar. Mergulhamos, nadamos até a praia, ao riacho
doce e de águas frescas e foi esforço grande para mim na época, para voltar ao
barco maior esforço ainda, porque o Guilherme ainda pequeno, cansou e subiu nas
minhas costas, nessa época eu ainda fumava e não praticava esportes regularmente
além de ter uma bronquite meio chata que me incomodava ao fazer exercícios
devia pesar uns 1002kg. Comemos, rimos, brincamos e as lanchas ao redor
sumiram, ainda comentamos o quão espertos éramos! Sim, vejamos... Logo em
seguida veio uma boa alma local com uma piroga com um motorzinho, toc toc
avisar:
-
Amigos o tempo vai virar, aconselho vocês a irem embora, estão com crianças e
vem chuva grossa por aí. Olhamos em volta, o dia continuava maravilhoso, o mar
calmo, mas acatamos sem discussão
conselho do experiente pescador. Recolhemos os restos e o lixo do picnic
e nos preparamos para zarpar. Marcio dá na partida e, nada, nem um ruidozinho ouvimos,
abre-se o capuz do motor e Marcio entra lá dentro, o enorme motor e ninguém
entendia nada do seu funcionamento, estamos fritos já pensei, com 3 filhos
pequenos e a mulher, tudo que consegui na vida estava ali à deriva. Dormir na
praia ia ser uma bela aventura para eles, Guilherme, 6 anos, Fernando, 7 anos e
Guga, 9 anos e já olhei na praia procurando algum lugar para abrigar-nos e
nada, praia deserta. Chamamos a boa alma da piroga, que retornou, pedimos
ajuda, para rebocar-nos até Ilha Bela, e ele disse impossível com esse meu
barquinho demora toda noite e vem tempo ruim por aí. E agora?! E ele disse tem
um iate lá na frente, vamos pedir ajuda, com muito esforço via-se uma manchinha
na linha do horizonte, era o iate lá parado. Subi a bordo da piroga e fomos com
o valente barquinho toc toc toc.
-Vai
demorar uma vida até chegarmos de volta, pensei, mas eu não ia conseguir ficar ali
parado na lancha esperando balançando e o mar ficando agitado, ia me jogar no
mar de ansiedade e náuseas. Demorou, mas chegamos ao iate. O marinheiro e o
dono vieram ter comigo na porta lateral e as informações foram dadas, deu na
partida e não ligou, e o marinheiro:
-Deve
ser o bendix que colou, então vamos até lá, entramos no iate e saímos. Era um iate
de uns 55 pés com 2 quartos, banheiro, cozinha e sala o Sr Gustavo o dono, veio
pescar com os netos naquele manjado parcel, procurando garoupas. Voltamos para
a lancha, lá chegando, o marinheiro experiente se agitava todo e dizia:
- Sobe que vai
virar! Sobe que vai virar! tínhamos que
passar todos da lancha para o iate, com
o mar batendo era difícil essa manobra e havia o risco de cair no mar, mas deu
certo, passamos todos para o iate, menos Fabinho e Marcio que não conseguiram e
permaneceram na lancha, com aquele mar agitado, jogaram uma corda e seriam
rebocados. Nessa hora que estávamos mais acomodados olhei em direção ao mar
aberto só vi uma enorme nuvem branca vindo em nossa direção, em minutos não se
enxergava um metro à frente e o iate, intrépido, continuava seu caminho. Fui lá
conversar com o marinheiro, que agora estava no leme, como fazer para navegar
sem ver nada. Ele me disse que, pouco antes de fechar, você tira a coordenada
de um ponto conhecido, depois é só seguir naquela direção. Vamos para o Saco Sombrio
que é o único lugar seguro com esse temporal, então vamos e íamos escalando
ondas com o iate do Sr. Gustavo habilmente manejado pelo Seu Pedro marinheiro.
Então estamos indo aqui, olha na bússola e o barco seguia em frente. A esposa do
dono solícita, veio nos preparar um lanche, nossa com aquele enjoo, nem pensar
em comer, além da preocupação com meu irmão e meu primo rebocados lá atrás na
lancha, que sacolejava presa apenas por uma cordinha, que parecia tão fininha
de tão esticada nas ondas enormes. Ventava e chovia e logo todos estávamos com
frio e sem roupas quentes.
Ondas de 3 metros apareciam pela frente e o
barco subia depois descia aquelas ondas enormes e eu lá dentro com toda minha
família, eu muito preocupado com tudo aquilo. O barco virava de um lado para
outro, as ondas batiam nas janelas, o dia virou noite.
O Fernando vomitava bastante,
numa destas idas até a pia do banheiro bateu os dentes no beliche, e lá se foi
um dente, e um fio de sangue escorria da boca ainda acrescentando dramaticidade
à situação já bem complicada.
Em meia hora o tempo mudou da água para o
vinho, estávamos andando há uma hora quando o temporal passou como se cortado
com uma faca. É que tínhamos chegado ao Saco Sombrio, que era uma enseada única
porque os montes que a protegiam, formavam algo como uma vírgula protegendo aquela
enseada das intempéries que vinham do mar aberto, ali só chovia sem ventos ou
ondas.
Rebocados naquele temporal no iate do Sr
Gustavo, desde que ficamos avariados na Baia de Castelhanos Marcio tentava
pedir socorro por radio ao iate clube de Ilha Bela. Todo sul do Brasil sabiam
de nós e com aquela tempestade tudo ficou mais dramático Sr. Gustavo avisava
pelo rádio que estava tudo bem, mas com aquele tempo a interferência era grande
e as notícias pouco claras. A tempestade passou, estava muito escuro e o que
era possível ver no Saco Sombrio eram as pouquíssimas casas na praia e nas
encostas. Precisávamos passar a noite ali e o marinheiro sugeriu irmos para a
casa da “Mariinha” (que depois descobrimos ser um abrigo abandonado da Marinha)
então, dividimos o povo e fomos dormir.
Fabio meu irmão, eu e meus meninos muito enjoados fomos para a casa da
marinha, um casebre de alvenaria abandonado na encosta do morro, levamos o
plástico que cobria a lancha e vamos nós, lá chegando com velas vimos que havia
um homem dormindo num quarto, havia outro vago e fomos para lá, jogamos o
plástico no chão e correu uma bela aranha de uns 10 cm de diâmetro veio em
nossa direção, vários pés descalços tentavam pisotear o artrópode que era bem
rápido e se safou num primeiro momento, organizamos as forças e ficou um contra
um! Ela não foi páreo para um pai stressado... Havia um machado encostado numa das paredes do
quarto, fechamos a porta e deitamos Fabio e eu na abertura da porta quem
quisesse entrar ali acordaria os dois e o machado ao nosso alcance, cansados
pelo stress que passamos deitamos no chão sobre o plástico e logo estávamos
ressonando. A noite passou rápido e a manhã vimos uma das vistas mais lindas
que já vi na minha vida, a casa da marinha ficava no alto então via-se a
enseada de cima com o iate e a lancha lado a lado, o sol refletido naquela água
verde escura e aquela paz, tudo correra
bem...graças ao pai celeste que nunca nos abandona.
Agora era voltar pra casa, do outro
lado da ilha. Rebocados pelo iate,
cruzamos com a lancha do nosso vizinho com seu caseiro no comando que ia nos
procurar, ele voltou jogou cordas para nós amarrarmos e saímos bem mais rápido puxados
pela lancha do vizinho. Só por pandega, Marcio dá a partida e eureka, os
motores ligam normalmente, disseram que na bateção da tempestade soltou o
bendix ?? Motor de arranque? Também não entendi, mas a verdade é que chegamos
em casa com nossa lancha andando lépida. Visão linda da nossa prainha e da nossa
casa. O caseiro já tinha, com sua mulher preparado um bom almoço para nós que
foi totalmente devorado pois a fome era de ontem, depois do almoço, a sesta em
cama com lençóis foi como uma dádiva e de fato foi, depois de tudo que passamos
estou mais consciente do que dizia minha
família, respeite o mar que é traiçoeiro e tem suas regras que os que o
conhecem entendem e respeitam.
Depois de uns dias o episódio já tinha sido
comentado e analisado muitas vezes em nossas conversas noturnas mas aquilo me
fez ver como o cigarro me fazia mal e a verdade é que chegando em Maringá,
comecei praticar tenis diariamente, parei de fumar e com o tempo emagreci uns
bons 15kg além de adquirir um pouco de resistência física. Há males que vem
para bem. Aquele fato de não conseguir nadar até a lancha me deixou muito
preocupado: - E se não houvesse quem me ajudasse...eu precisava fazer algo: parar
de fumar, praticar esporte e diminuir a comida foi o que decidi fazer e com o
tempo funcionou. Aquele sufoco serviu para algo bom em mim.
Uma bela história, uma grande
aventura, uma lembrança divertida para nós. Mas nesses tempos de revisão da
vida, de balanço de atitudes, sempre vem o pensamento “e se... o iate não
existisse ou tivesse virado, o bom pescador não nos avisasse e depois não nos ajudasse...”
Agora preciso ter uma visão assim
pra recomeçar a vida com as novas perspectivas e tirar o melhor dela. Sem jogar
tênis? Vamos de videogame, baralho, xadrez....Viagens sem metrô, grandes
correrias e aventuras? Vamos de carro alugado e outras mordomias...Violão,
guitarra? Vamos de sax, trompete... O importante é querer ir e chegar lá. Difícil,
mas “eu consigo o dobro”, né Riane?
Valeu gente!
Maravilhoso, Celso Barreto, seu depoimento. Uma aventura e tanto. Mas o que gosto mesmo de ver é essa garra que tomou conta de todo o seu ser.. Parabéns não só a você, mas igualmente à Estela e filhos. Trabalho em equipe altamente recompensado. Continue escrevendo, você leva muito jeito.Um abraço amigo. Marisa Moraes
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ResponderExcluirrealmente somos um time aqui em casa e dona stella o t'écnico,. com sua disposição e inteligencia e determinação, na maioria das vezes ela que me poe por diante, pois é muito difícilcaminhar todos os dias sem esmorecer
meus filhos tambbém não podem me ver parado, um time bastante rigoroso
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