Minha nova posição de espectador me
faz mais observador e minha memória as vezes me leva a lugares quase perdidos.
Ontem mesmo me lembrava dos velhos
tempos. Em 1971 no Natal, ganhei de presente um bandolim da Stella. Nunca tinha
tocado um e fiquei fascinado. Por muito tempo só ouvi e toquei chorinho. Acabei
por me juntar a um grupo com Osvaldo Colagrande no 7 cordas, Xixa no cavaco e
Joãozinho no pandeiro, ensaiávamos músicas inéditas do Esmeraldino Sales, cavaquinista
e grande compositor de choro que acabou por inscrever uma musica chamada Arabiando no festival de
choro da TV Bandeirantes. Fomos pra final, eu solista do grupo! Na tarde da
apresentação participei do handbol da Santa Casa, e numa entrada mais dura
quebrei o segundo metacarpo da mão esquerda. Atendido no PS logo ganhei um
gesso até o cotovelo. Correndo fui ligar para o grupo e dar a boa notícia! foi
tenso e chato. Mas arranjaram um substituto, ficamos em terceiro lugar, e a
gravação para o disco, já havia sido feita com o meu solo. O cachê de 300,00 pago
pelo terceiro lugar tinha destino certo: pizza, cerveja e as histórias
impagáveis do Esmeraldino, nosso mentor . Esse encontro nunca ocorreu,
Esmeraldino faleceu dias depois em
decorrência de complicações do diabetes e da pressão alta.
Nessa
mesma época, as sextas de noite ia ver o Conjunto Atlantico do Isaías tocar, lá
na Av. Rudge no centro de SP. O Sr. Ernani d’Áurea, o 7 cordas e dono da casa
não admitia bebida alcoólica, então aqueles que gostavam iam até o bar da
esquina, que já sabia disso e deixava a porta
do lado aberta, tomavam seu
aperitivo e voltavam. Muitas vezes quando Isaias ia molhar a palavra, me
chamava para a roda , deixava seu bandolim comigo e ia tomar sua pinguinha na
esquina, aí eu escolhia a música que estava mais afiado naquela semana, dizia o
nome e iniciava. Eu no lugar do Isaías! e ainda, tocando no seu bandolim! Puro
prazer! Valia a pena esperar uma semana para outra oportnidade! Isso acontecia na
alta madrugada e no dia seguinte passava visita às sete da manhã na Santa Casa, era residente da
ginecologia e tinha obrigações, chefes e cobranças, mas cumpria minhas tarefas muito
bem nos 3 anos de residência.
No sábado antes do almoço havia uma
roda de choro informal na fabrica de instrumentos Soros no bairro da Casa Verde,
nestas ocasiões alguém levava uma garrafa, para o aperitivo. O 7 cordas
costumava ser o Israel, irmão do Isaías ou o Carioquinha, aí era mais solto e o
Isaías improvisava muito, que era lindo de se ouvir. Participar daquele
happening musical paulistano, um dos melhores que já ouvi foi um privilégio,
chegava em casa sempre atrasado para o
almoço mas alimentado de música, quase
não precisava comer...
O tempo passa, a vida muda. São lembranças
ricas e saborosas que me ajudam a encarar os desafios de agora. Vitorias são
vitórias, nessa semana dobrei voluntariamente meu cotovelo! Ótimo. Preciso de
muita concentração para fazê-lo pois não sinto o braço e nem sempre acerto o
grupo muscular a usar, a fisio Helen,incansável, fica ali orientando, e chega a doer a
cabeça de tanto concentrar, também dei uma volta no quarteirão, só com uma
descansadinha de 2 minutos. Hoje dei mais meia volta e amanhã devo dar mais
meia e assim vou indo não é “quero coçar a orelha e o braço vai lá”, ninguém
pensa em elevar o bíceps, dobrar o cotovelo e mexer os dedos para coçar a
orelha simplesmente coça e acabou. Eu não sinto o braço mas tenho que
reaprender os movimentos, nem sempre,
acerto o que quero fazer as vezes recebo ordens para dobrar o cotovelo e contraio
o braço todo, não sai nada.
Entre exercícios e
recordações vou devagarinho me reabilitando e contando historias do passado e
do presente.
Este é o Celsão de
hoje.
Este é o Celsão, acrônico, como o Choro. De antes e de hoje. Não me canso dessa história das rodas com o Isaías. Abraço ! Filipe.
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